A importância da dança do ventre para a autoestima feminina
- marcelatrabalhosfm
- 24 de nov. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de nov. de 2023
Professora incentiva mulheres a se expressarem através de música árabe para melhorar o autoconhecimento do corpo com projeto na cidade de Camaçari (BA)
Por Marcela Virgulino

Moradora de Camaçari, no estado da Bahia, Angela Cheirosa, de 49 anos, é uma professora, coreógrafa e bailarina de dança do ventre que ocupa boa parte de seu tempo ensinando mulheres a se expressarem através de coreografias e muita música árabe. Com mais de 15 anos de experiência na área, ela está a frente de um projeto social chamado Flor de Lótus, que proporciona às pessoas em situação vulnerabilidade uma oportunidade através da dança.
Em um momento difícil da vida, nos auge dos 30 anos e com tantas cicatrizes, ela encontrou dentro de uma sala de yoga algo que futuramente beneficiaria muitas mulheres. “No ano de 2008 e tinha ficado recém-viúva, engordado de 50 a 100 kg e estava procurando atividades que pudessem me ajudar a emagrecer, e também a voltar ter sanidade mental, já que eu estava tendo crises de pânico e depressão, foi então que nesse dia tive uma aula experimental de dança do ventre e não parei mais”, explica.
Sorte ou destino nada disso importava, e sim, uma dança que trazia alegria e, sobretudo o autoconhecimento para Angela, em meio a tantas coisas como trabalho e a vida pessoal o gosto pelo o mundo das artes árabes era evidente, mesmo com a perda de seu marido essa era uma mudança que precisava ser feita e foi o que ela fez. “Quando eu descobri que a dança do ventre era altamente curativa, no sentido de acalmar o coração e aplacar as dores, e ela te coloca como protagonista da sua própria vida, isso me levou a querer dar aula, ser professora e especializar na área”.

Afeiçoada com o novo universo na época, entre os anos de 2008 e 2011 aperfeiçoar as técnicas a levou Cheirosa a concluir uma nova perspectiva, “a dança do ventre que eu pratico, acredito e coloco como centro da minha profissão e da minha existência enquanto profissional, é que esse tipo de dança apesar de não aparecer, ela é extremamente inclusiva e democrática”. Com alunas em uma faixa etária dos 20 aos 70 anos, essa inclusão traz exatamente o que a professora prega autoestima e um pouco de música faz toda diferença no dia a dia.
Apesar dos grandes feitos na história da evolução humana, existem algumas regras que acabam recaindo quando se trata de beleza, os padrões são variadas formar de normalizar atitudes negativas para conquistar a beleza ideal, na dança do ventre isso também acontece, mas para a professora vai muito, além disso. “O único pré-requisito é ter um corpo, apesar das pessoas passarem todos os dias a mensagem, que dança do ventre é para determinados corpos, cabelos, cores e estética, ela é para todo mundo”.
Para Angela a importância na dança do ventre está na sua gênese e essência, o que a torna acessível para todos, além dos benefícios que melhoram a relação com o corpo, mente e a sensualidade, a diversidade vai de encontro a pessoas que nunca se imaginaram nesse ambiente. Outra questão é a autoestima que potencializa mais segurança sobre corpo e confiança para encarar situações do dia a dia.
“A dança do ventre é uma reconciliação da mulher com o espelho, com o próprio corpo da mulher que hoje em dia está lidando com vários tipos de problemas, já que fomos ensinadas a nos vestirmos e comportarmos de determinadas maneiras. Angela também comenta que essa modalidade precisa ser aceita internamente pelo iniciante. “O primeiro passo é compreender em nossos pensamentos que a dança é para mim e para a minha qualidade de vida e que todo o resto vai fluindo ao longo do que vamos construindo”, conta Angela.
Flor de Lótus
Entre um passo e outro, entre um rodopio e uma coreografia, olhar para o mundo e reconhecer que ele tem possibilidades era o diferencial para conquistar novos objetivos. Ministrada em Camaçari, as aulas de dança do ventre envolvem muito mais do um simples passo e uma jogada de cabelo, o projeto Flor de Lótus viabiliza mulheres que estão em situação de vulnerabilidade social e está presente ao longo de 12 anos transformando vidas.
Mesmo com pouco tempo no mundo da dança do ventre, a professora já visava algo que poderia ajudar outras mulheres. “Desde que comecei a dançar mesmo antes do projeto Flor de Lótus, que mantenho desde 2011, que procura oferecer e ofertar autoestima, empoderamento e novos recomeços através da dança do ventre, desde o começo já tinha nome quando ele nasce. Ele já nasce todo estruturado”.
Com a realidade de uma mulher negra que sabe os obstáculos que a espera, Cheirosa decidiu juntar tudo o que tinha vivido e fazer a diferença na comunidade de Camaçari, pequeno ou grande não importava, o propósito era continuar. “No meu entorno existia na época e ainda existe uma infinidade de mulheres com a alma adoecida e aquilo que eu estava aprendendo, recebendo e vendo com a dança seria de uma utilidade muito grande ser repassada para elas”. Sabendo disto, mãos a obras, nascia o projeto que alcançaria pessoas do outro lado do país, já que a publicação de vídeos em suas redes sociais (@angelacheirosa) permitiu esse acesso.
“O único pré-requisito é ter um corpo”
Às vezes um sonho parece distante, mas com persistência e foco as possibilidades são muitas. “Em 2011 eu consegui fazer uma parceria com a associação de moradores de bairro com grande vulnerabilidade social aqui de Camaçari, e comecei a oferecer gratuitamente aulas de dança do ventre para mulheres em situação de vulnerabilidade como, violência doméstica, familiar, baixa autoestima e fome, comenta.
Hoje temos números positivos e impressionante de mulheres que foram e são beneficiadas com o Flor de Lótus, a atitude nobre e respeitosa de Angela Cheirosa revela o quanto reviravoltas podem mudar a história que escrevemos todos os dias, “atualmente o Flor de Lótus atua em Camaçari com turmas para idosos, regulares, adultos e crianças, sem contar as professoras que dão aula comigo todas são crias desse projeto, todas formadas professoras pelo projeto”.
Para um público
Diante de muitas questões e anos de aprendizados, Angela desenvolveu um livro pra ajudar profissionais e iniciantes no mundo da dança. “O meu livro nasceu de várias inquietações, o livro “Aposta nos Básicos” veio dessa busca que toda bailarina de dança do ventre acaba tendo, que é – “eu não tenho curso acadêmico”, “eu não tenho regras específicas”, “eu não tenho parâmetro”, até os nomes dos movimentos são regionalizados”.
Diferente de outras danças clássicas que consistem em regras e normas, a ventre, por sua vez, está enraizada na cultura árabe desde sempre e necessariamente não precisa de uma formação técnica para que possa ministrar aulas. Segundo um estudo realizado pela Universidade Rio Claro em São Paulo, essa modalidade nasceu a cerca 8 mil anos a.C. como uma dança sagrada. “Mulheres egípcias já nascem com a cultura da dança do ventre e não faria sentido nenhum para elas terem uma escola de dança do ventre”, explica.
A professora acredita que tem muito a ensinar para aqueles que desejam conhecer com profundidade a dança do ventre, e, sobretudo, ter o prazer de fazer parte de seus ensinamentos. “Tem um certo perfil de pessoas que acreditam numa bailarina negra, gorda, nordestina de quase 50 anos, numa arte africana, porém ocidentalizada, embranquecida, que nega acesso a determinados tipos de corpos a essa prática, ou seja, simplificar, organizar, sistematizar e orientar são palavras que norteiam o trabalho do meu livro “Aposta nos Básicos” ”, completou.

.png)


Comentários