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“Descobri que meu marido tinha HIV assistindo televisão”

  • marcelatrabalhosfm
  • 25 de nov. de 2023
  • 5 min de leitura

Luiza Magno, uma mulher negra, mãe de duas crianças nos anos 1980 notou que a saúde de seu marido não ia nada bem e resolveu investigar os sintomas por conta própria


Por Marcela Virgulino


Carto ao Leitor


Imagem: Marcela Virgulino

Minha história é antiga e as marcas do tempo vão além da idade, com uma vida ocupada pelos afazeres domésticos e o cuidados com meus dois filhos na época, ainda bebês, planejava um futuro diferente do qual vivo hoje, nem imaginava que tudo poderia mudar em piscar de olhos. É muito rápido como uma notícia pode impactar nossa realidade, boa ou ruim, o resultado sempre vem. Os tempos eram outros, e o mundo, despertava sobre uma nova epidemia que levou muitas pessoas embora, deixou cicatrizes e uma saudade grande demais.


Durante a década de 1980 o que mais se ouvia falar era sobre o HIV e a evolução para Aids, lembro-me perfeitamente das campanhas, faixas, cartazes e as propagandas sobre o que essa doença poderia causar. O desespero tomava conta e a pouca informação que tínhamos se transformavam em mentiras gigantescas, assombrosas, que acabavam com a vida de quem tinha o vírus, meu Deus, que tempos eram esses? Onde estava a compaixão e o amor ao próximo? Nem todo mundo tinha coragem de acolher e apoiar, não era preciso muito, mas uma palavra amiga poderia ter sido o suficiente.


Entre a rotina da semana e os perrengues que todo brasileiro passa, estava tudo bem, mas no ano de 1986 comecei a notar que a saúde do meu marido Roberto, não estava para lá das melhores. Era sempre uma dor de cabeça, de garganta, um cansaço, mal-estar, dores pelo corpo, comia pouco e por assim foi indo, até que me dei conta que alguma coisa estava errada, nunca melhorava e continuava no mesmo estado. Com o mínimo de conhecimento e aquilo que via nos noticiários descobri que meu marido estava com HIV, foi chocante demais, porque eu precisava contar para ele e convencê-lo a fazer o teste, pois sabia que esses sintomas começaram depois de um simples exame de sangue.


Não foi fácil dizer que as nossas vidas daquele dia em diante não seriam mais as mesmas, que teríamos que enfrentar o mundo e começar mais uma batalha. Quando conversamos sobre o assunto sabia que ali, no mesmo instante, havia perdido alguma coisa, não sei o que, talvez o sentido ou esperança, mas sabia de algum jeito que não poderia desistir, afinal tinha duas crianças de colo para criar e não tinha ninguém da minha família que pudesse ficar com eles, já que não via minha família há 32 anos e se caso o pior acontecesse a do Roberto ficaria sobrecarregada demais.


Depois de uma longa e dura conversa, decidimos que iríamos fazer o teste para confirmar e nos prevenir de alguma forma, qual eu também não sabia, pois naquele tempo não havia tratamento como hoje. Entrando no consultório numa sala pequena com paredes brancas, e com uma mesinha que mal cabia os papeis, o doutor nós perguntou se sabíamos o porquê de estarmos especificadamente ali, em um tom muito confiante e ponderado, desse que sim, era porque meu marido tinha HIV e descobri assistindo televisão. Não foi preciso muito para ver a expressão no rosto dele de susto, mas era verdade e tinha que dizê-la, afinal era ele o médico. Então também fui conduzida a fazer o teste por precaução.


Dito e feito, soropositivo foi o diagnóstico, não só dele, mas meu também. Roberto não acreditou no resultado e negava-se aceitar que ele era mais uma vítima, o medo foi tanto por sua parte que me fez prometer que não iria contar para ninguém. E assim foi, sofremos calados por um tempo, uma solidão compartilhada que nos arrastava dia após dia, até que um dia conhecemos da pior maneira o quanto o ser humano pode ser cruel. Em meio a todo caos, não sei quando ou dia ele contou para um irmão sobre a doença, acho que queria desabafar, ter um refúgio além de mim, mas o que era para se segredo virou julgamentos alheios.


Se sei de uma coisa, é que as palavras podem machucar muito mais que um tapa, é uma ferida que abre e demora muito para se cicatrizar, o que para mim viria durar 69 anos, idade que tenho hoje, para meu marido, durou apenas noves meses. Então ele chegou ao estágio da Aids e morreu? Não! O preconceito o levou embora e para longe de mim, a depressão veio tão rápida que ele já não respondia mais com ânimo para a vida. Certa vez Roberto perguntou a um conhecido se gostaria de uma carona e gritaram em voz alta “vai não, ele tem HIV, você pode contrair”, como se HIV pegasse desse jeito. Tive que tirar forças de onde eu não tinha, tive de lutar e sair para trabalhar, principalmente mostrar aos meus filhos que desistir não era uma opção.


Alguns anos depois conheci Augusto, um homem que jamais pensei que encontraria, veio ser o pai dos meus filhos e ainda me deu um lindo menino. Nesse meio tempo contei para ele sobre HIV e tudo que tinha passado. Incrível do jeito que era, me aceitou e disse não se importava, parecia um sonho, mas foi assim que criamos nossa família e construímos um lar. E mais uma vez, outra surpresa viria para mina vida, meu segundo marido tinha contraído o vírus, foi um baque porque sabia que eu tinha passado para ele, só que desta vez a situação foi mais leve, porque vivemos muito bem.


Com a morte de um dos meus filhos em 2001, veio uma depressão profunda, os remédios ficaram de lado e tratamento também, mas com ajuda de uma ONG encontrei pessoas que possuíam histórias parecidas com a minha e pude novamente mudar. Compreendi que quando levamos um tombo, por mais forte que seja devemos continuar caminhando, no ano de 2020, Augusto se foi por questões de problemas renais e de novo tive que passar pela dor de perder alguém que amei muito. Cai, levanta, tudo isso faz parte da vida e no fim das contas te deixa mais sábia.


Atualmente estou com a carga viral indetectável, o que significa que isso torna a infecção por HIV intransmissível, faço exame regularmente a cada seis meses para ver se está tudo bem. Hoje consigo olhar para trás e ver que sou uma mulher guerreira, suportei tantas mágoas, tantos medos que isso me fez crescer. Enxergo o ser humano e as variadas situações da vida com outros olhos, não sou mais a mesma Luíza de antes, carrego comigo uma história de amor e dor. Sou uma mulher vencedora, chequei até aqui e nada vai mudar isso”.


*Luíza Magno - é um nome fictício da mulher que conta essa história.


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