ENTRELACE DE ESTILOS: A MOLDAGEM DA MODA BRASILEIRA PELA RIQUEZA DA CULTURA AFRO
- marcelatrabalhosfm
- 24 de nov. de 2023
- 3 min de leitura
Por Renata Rodrigues

A moda, além de seu papel estético, desempenha um papel significativo como diferenciador social, refletindo as nuances de classes e grupos sociais. Este fenômeno, intrinsecamente ligado aos estudos de sociologia, costumes e história, destacam-se como uma das mais poderosas formas de expressão humana. Não é apenas o que vestimos, mas como escolhemos vestir, que nos permite revelar nossa identidade sem emitir uma única palavra. Nesse cenário de constante evolução e movido por tendências, a moda se torna uma janela para observar as transformações nos tempos, na sociedade e nas relações sociais, evidenciando as complexidades das diferenças sociais.
No contexto brasileiro, país abraçado por uma riqueza de referências e costumes culturais, a moda não escapa da influência das diversas culturas que contribuíram para a formação da identidade nacional durante o período de colonização. As pessoas escravizadas, trazidas para estas terras, deixaram uma marca indelével em nossos hábitos, costumes, alimentação e, é claro, na moda, cujas referências perduram até os dias de hoje. Este convite à reflexão nos leva a explorar as tendências que carregam consigo vestígios da cultura africana, uma narrativa muitas vezes sutil e menos documentada, mas ainda profundamente presente.
A moda, mais do que um simples adorno, é um registro vivo das experiências humanas, uma expressão multifacetada moldada por identidades e tendências em constante metamorfose. Em solo brasileiro, essa evolução é entrelaçada às nuances da colonização e, notadamente, à influência das culturas africanas trazidas pelos indivíduos escravizados. Embora a documentação dessa época seja escassa, as imagens e vestígios remanescentes são pistas reveladoras de uma herança que ecoa até os dias atuais.
Desde os tempos coloniais, serviu como mediadora de narrativas sociais, sendo os tecidos e cortes testemunhas silenciosas das vivências afro-brasileiras. Os padrões vibrantes, as amarrações estratégicas e a riqueza estética carregam consigo o legado da diáspora africana, traçando um caminho subtil na construção do guarda-roupa nacional.
O Brasil, caldeirão cultural, absorveu e reinterpretou as influências africanas, refletindo nas escolhas cromáticas que adornam nossas vestimentas. Do vibrante amarelo-ouro aos tons terrosos, as nuances da cultura afro reverberam nas paletas que desfilam pelas ruas, resgatando memórias e contando histórias de resistência e celebração.
Além do visual, a moda afro-brasileira é um símbolo de empoderamento. Marcas e estilistas contemporâneos têm resgatado tradições e promovido a inclusão, evidenciando a riqueza cultural que molda nossa identidade. O turbante, por exemplo, transcendeu a mera peça de vestuário, tornando-se um emblema de resistência e afirmação da beleza negra.
A rica cultura africana é um festim de cores vibrantes, estampas cativantes e produtos meticulosamente feitos à mão, elementos que encontram eco em nossa moda. Entretanto, você já parou para desvendar as tendências que transcendem essas referências visíveis, mas que ainda carregam a influência marcante da cultura africana? Acompanhe-me nesta jornada, pois vou revelar algumas dessas tendências que permeiam nosso país, muitas vezes passando despercebidas em meio ao nosso cotidiano estiloso:
1. Algodão Branco: Tradição Tecida pela História
Nos tempos da escravidão, a comunidade negra não apenas produzia suas próprias vestimentas, mas influenciava o vestuário dos colonizadores. O algodão grosso, sem tingimento, era o material acessível, impulsionando a produção em massa. Hoje, a camiseta branca e calça de linho, herança dessa época, tornou-se um look amplamente adotado na cultura brasileira e global.
2. Miçangas: Adornos com História e Significado
Na cultura africana, as miçangas são símbolos de beleza, riqueza e proteção. Na religião umbandista brasileira, originária no país, as miçangas são usadas como amuletos de proteção. Desde 2019, essa tendência de acessórios cresce no mercado brasileiro, incluindo chokers de búzios que, em 2016, tomaram conta do verão brasileiro. Surpreendentemente, essa moda tem suas raízes na cultura africana.
3. Renda Branca em Festas: Entre o Sagrado e o Profano
O hábito de usar renda branca em eventos tem raízes na cultura afro-brasileira. Mulheres brasileiras, ligadas as religiões de matriz africana usam vestidos de renda branca para repelir energias negativas em dias de trabalho espiritual. Hoje, essa tradição evoluiu para o uso de roupas de renda branca em celebrações festivas, marcando uma distinção entre o sagrado e o profano.
4. Estampas: Cores e Formas que Contam Histórias
A cultura africana é rica em cores e estampas que simbolizam identidade e prosperidade. Essa prática, adaptada à moda afro-brasileira, incorpora cores vibrantes e estampas geométricas, revelando a influência marcante da África em nosso clima tropical. Esta tendência representa uma fusão cultural que enriquece o cenário da moda brasileira.
Entender a moda vai além de seguir tendências; é mergulhar na história, referências e valorizar as influências culturais. A moda afro-brasileira, embora forte, ainda carece de destaque nas coleções de estilistas e reconhecimento de talentos negros no mercado. É fundamental que busquemos e celebremos nossas raízes, promovendo a força e o reconhecimento internacional da cultura brasileira.

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