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O Surgimento do Movimento Global Black Lives Matter Três Mulheres Transformam uma Hashtag em Mudança

  • marcelatrabalhosfm
  • 24 de nov. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 25 de nov. de 2023

Por Renata Rodrigues


Imagem: Marcela Vigulino

Este movimento tem causado um grande impacto na vida da comunidade negra nos Estados Unidos, buscando unir as pessoas em busca de igualdade e inclusão social, após décadas de racismo, desigualdade social e brutalidade policial. A luta contra a discriminação racial foi impulsionada por diversos eventos marcantes.

O Black Lives Matter (BLM), que se traduz como "Vidas Negras Importam" ou "Vidas Negras Contam", é um movimento ativista que teve início nos Estados Unidos e se disseminou globalmente. De acordo com seus membros, ele surge como uma resposta a um ataque deliberado às vidas negras.


O principal objetivo desse movimento social é combater a discriminação, a desigualdade racial e a brutalidade policial. Atualmente, suas maiores manifestações ocorrem em resposta às mortes de afro-americanos nas mãos de policiais brancos.

O BLM opera de maneira não hierárquica e sem uma estrutura formal, assemelhando-se a uma rede descentralizada.


No site oficial do movimento, encontramos a seguinte declaração:

"Black Lives Matter é uma intervenção política e ideológica em um mundo onde vidas negras são sistematicamente e intencionalmente apagadas."


No entanto, para compreender plenamente esse movimento, é fundamental considerar a história dos afro-americanos e as lutas que enfrentaram ao longo do tempo.


Qual é o contexto que envolve a segregação racial nos Estados Unidos?

A ideia de abolir a escravidão estava presente nos primeiros rascunhos da Constituição Americana, mas foi removida devido à influência das colônias do sul. Menos de um século após a Independência, os estados do sul buscaram se separar, pois o governo federal defendia a abolição da escravidão.


Em 1861, uma guerra civil eclodiu após a eleição de Abraham Lincoln, resultando na abolição da escravidão quatro anos depois. No entanto, a questão da segregação racial persistiu, especialmente nos estados do sul. Embora agora livres, os afro-americanos eram submetidos a leis que os separavam dos brancos.


Essa segregação racial era fundamentada em doutrinas jurídicas incorporadas à constituição dos Estados Unidos, justificando e legalizando a discriminação racial no país. Isso significava que os negros não podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos. Até as décadas de 1930 e 1940, a segregação estava presente em escolas, filas, vagões de trem, banheiros públicos, restaurantes, bebedouros, hospitais, prisões, teatros, igrejas e até cemitérios. Havia até mesmo leis que negavam aos negros o direito de votar.


Essas leis que instituíam a segregação racial eram conhecidas como "Leis Jim Crow". Somente na década de 1950 houve tentativas de encerrar essas práticas discriminatórias, mas devido à forte resistência política, elas só foram efetivamente abolidas na década de 1960.


Com essa breve contextualização da história da segregação racial nos Estados Unidos, agora é fundamental entender os antecedentes desse movimento para compreendê-lo nos dias atuais.


Quais movimentos influenciaram o Black Lives Matter?

O BLM, foi moldado por uma série de movimentos e eventos que deixaram uma marca indelével na luta por justiça racial. O primeiro deles foi o movimento pelos direitos civis, que culminou na eliminação das leis raciais nos anos 1960. No entanto, o Sul dos Estados Unidos continuou a resistir, e neste cenário surgiram figuras emblemáticas como Martin Luther King Jr. e Malcolm X.


Esses líderes divergiam em relação aos meios a serem utilizados na busca pela igualdade, com Malcolm X sendo mais inclinado à aceitação de quaisquer métodos, inclusive a violência, enquanto Martin Luther King Jr. advogava pela desobediência civil e rejeitava a violência.


Outro grupo notável foi o Black Panthers, criado por estudantes universitários com inclinações marxistas. Uma das demandas centrais desse movimento era a libertação de todos os prisioneiros negros. Apesar de ter se estendido para 68 cidades com milhares de membros, os Panteras Negras acabaram por declinar devido a prisões, atividades criminosas como tráfico de drogas, extorsão e conflitos internos, o que levou à sua extinção.

Essa época também foi marcada por movimentos marxistas, guerrilhas e o ressurgimento da revolução sexual em todo o mundo.


Além dessas influências, as principais organizadoras do movimento BLM também apontam para outras fontes de inspiração, como o Movimento Black Power, o feminismo negro, a luta contra o apartheid, a causa LGBTQI+ e o movimento Occupy Wall Street.


No entanto, os manifestantes do BLM se destacam das gerações anteriores, que tinham fortes vínculos com a igreja e tradições de classe média. Os antigos grupos frequentemente eram liderados por figuras carismáticas, enquanto os grupos contemporâneos do BLM adotam um modelo de liderança mais centrado no coletivo.


O BLM também se diferencia ao abranger a causa não apenas dos negros, mas também de negros homossexuais, transgêneros, pessoas com deficiência, imigrantes indocumentados e aqueles com antecedentes criminais.

Compreender as semelhanças e diferenças entre esses grupos é essencial para aprofundar nosso entendimento da história em evolução que se desenrola atualmente.

Como se iniciou o Black Lives Matter?


O ano de 2020 será lembrado por muitos eventos históricos, e um deles é a ascensão do movimento "Black Lives Matter" (Vidas Negras Importam), que transcendeu as fronteiras dos Estados Unidos para se tornar uma voz global na luta contra a injustiça racial e a brutalidade policial.


A ação se iniciou após a absolvição de George Zimmerman no dia 13 de julho de 2013, pela morte de Trayvon Martin, o movimento começou com a hashtag #BlackLivesMatter.

  • Alicia Garza, diretora da National Domestic Workers Alliance (Aliança Nacional de Trabalhadoras Domésticas);

  • Patrisse Cullors, diretora da Coalition to End Sheriff Violence in Los Angeles (Coligação contra a violência policial em Los Angeles);

  • Opal Tometi, ativista pelos direitos dos imigrantes.


Elas cruzaram seus caminhos na Organização Negra para Liderança e Dignidade (BOLD), uma instituição dedicada ao treinamento de líderes comunitários. Enraizada em uma perspectiva de pensamento marxista, sua missão principal é canalizar causas sociais em fontes propulsoras de modificações políticas.


A BOLD foi estabelecida com o propósito de oferecer programas abrangentes de treinamento, orientação e suporte técnico, visando a realização de mudanças progressistas. Seu objetivo é alinhado com a agenda da esquerda política, buscando promover um impacto positivo na sociedade por meio do fortalecimento de lideranças comunitárias.


As três mulheres pensaram como motivar a valorização das vidas negras, por causa da absolvição de Zimmerman. Alicia Garza deu o pontapé inicial para a campanha com um post no Facebook intitulado "Um bilhete de amor para os negros", no qual declarou: "Nossa vida é importante, a vida negra." Foi nesse momento que Patrisse Cullors respondeu com a hashtag #BlackLivesMatter, e Opal Tometi apoiou a iniciativa. Assim, a campanha ganhou vida nas redes sociais.

No entanto, o movimento de nacionalização do Black Lives Matter (BLM) teve início em 2014, quando uma série de manifestações de rua ganhou força. Essas manifestações foram desencadeadas pela trágica morte de dois jovens negros: O homicídio de Michael Brown, de 18 anos, ocorreu em 9 de agosto de 2014 na cidade de Ferguson, na periferia de St. Louis, Missouri, Estados Unidos. Brown, um jovem negro, morreu após ser alvejado pelo oficial da polícia municipal Darren Wilson.


Em 17 de julho de 2014, Eric Garner perdeu a vida em Staten Island, Nova Iorque, quando um oficial do Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD) o submeteu a uma ação que posteriormente seria descrita como um estrangulamento, mantendo-o contido por um período de aproximadamente 15 a 19 segundos.


Essas duas mortes desencadearam o surgimento das manifestações do BLM em todo o país. Em Ferguson, o primeiro protesto do BLM reuniu mais de 500 membros em um evento chamado "Passeio pela Liberdade das Vidas Negras". O movimento cresceu exponencialmente, expandindo-se para o campus universitários e, eventualmente, alcançando outros países, como Brasil, África do Sul e Austrália, em 2016. As ações de protesto ocorreram tanto nas ruas quanto nas redes sociais.


Os ativistas do BLM argumentam que os Estados Unidos possuem um sistema político, social e econômico permeado pelo racismo estrutural, e que a cultura desempenha um papel significativo nos assassinatos de pessoas negras por supremacistas brancos.

O que começou como uma campanha online rapidamente evoluiu para uma organização política. Por exemplo, a Black Lives Matter Global Network arrecadou mais de seis milhões de dólares em recursos para apoiar sua causa.


Grandes corporações e celebridades também aderiram à hashtag #BlackLivesMatter e se manifestaram em apoio aos protestos. Tivemos muitos artistas importantes apoiando a causa.

O movimento "Black Lives Matter" começou como uma resposta à injustiça racial nos Estados Unidos, mas sua mensagem e impacto se espalharam pelo mundo, transformando-o em uma força global na luta por igualdade, justiça e dignidade para as vidas negras. Sua trajetória, da hashtag à organização política, destaca o poder das redes sociais e a capacidade de mobilização em massa em busca de mudanças sociais significativas. O BLM continua a ser um catalisador fundamental na discussão sobre questões raciais em todo o mundo.


O Impacto de 'Vidas Negras Importam' na consciência dos Brasileiros diante da violência racial


Foi necessária uma onda de protestos antirracistas nos Estados Unidos para despertar uma parte da sociedade branca que anteriormente ignorava a violência policial, se acostumava a banalizar o genocídio de jovens negros nas favelas e demonstrava complacência em relação à falta de representatividade em posições de destaque no Brasil.


Muitos aderiram à versão brasileira do movimento 'Black Lives Matter' (Vidas Negras Importam), usando hashtags como #blackouttuesday nas redes sociais. No entanto, apesar das campanhas pontuais, o compromisso contínuo com a causa antirracista ainda é predominantemente liderado pelas vozes do movimento negro.


Acredita-se que ainda haja uma carência significativa de empatia em relação às mortes de pessoas negras por parte daqueles que estão distantes dessa realidade no Brasil. Frequentemente, observa-se que há protestos liderados por familiares, vizinhos das comunidades e ativistas do movimento negro, enquanto a participação e solidariedade da comunidade branca nessas manifestações é limitada, assim como a utilização de seus espaços privilegiados para efetuar mudanças.


O ativismo digital desempenha um papel importante, no entanto, é essencial que se manifestem de maneira mais enérgica em suas áreas de influência, como cobrando das instituições jurídicas um controle efetivo sobre a polícia e incentivando a imprensa a cobrir as mortes de pessoas negras de maneira contínua, não apenas quando ocorrem manifestações. Isso reflete o verdadeiro compromisso em assegurar que as vidas negras sejam genuinamente valorizadas.


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